Terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

Tradições Rurais

 

                  Trabalhos Campestres

 

 

A vida rural do Alto Minho é uma das grandes tradições de Viana do Castelo. As áreas profissionais mais antigas desta região, que ainda hoje, algumas delas, se mantêm em voga, são: a lavrada dos campos, a desfolhada, o linho e a matança do porco.

 

A lavrada dos campos

 

A alta madrugada, encaminha-se o lavrador para o campo com a intenção de aproveitar o tempo e fugir ao calor. Leva o arado, a grade, o timão, as sementes, a cabaça com vinho e o cesto da merenda. Acompanham-no a mulher e os filhos, a criada, o vizinho ou compadre, mais a sua junta de bois ou touros.

Só dali a algumas horas é que o sol os encontra, já depois de meio campo cultivado. O trabalho é duro e de vez em quando há uma paragem para o gado e aproveita-se para molhar as gargantas. Finda a lavrada, é mais uma junta que pega na grade, termina-se o trabalho pelo alisar da terra. A cabaça vai rodando, e já a “patroa” estende a toalha de linho e coloca sobre ela a boroa, o bacalhau frito, a malga das azeitonas e as tigelas para o vinho. Todos saboreiam essa pequena refeição com a satisfação e a alegria de mais uma tarefa realizada. Retiram-se, por fim, mas nunca o lavrador deixa de olhar a terra com ternura, de traçar sobre ela uma cruz e murmurando uma prece que é o pedido da bênção do céu para que torne fecundo o seu trabalho. 

 

                     

                                  Fig. 1: A lavrada dos campos

 

 

A desfolhada

 

Começa de véspera a azáfama do corte do milho. Pela tardinha, refrescado o tempo, e amaciada a palha, vêm alguns carros de fora que viram a palha no terreiro. As pessoas retiram braçadas para os espaços vazios a fim de os ocupar. Já há frenesim e alvoroço em toda a casa. De pão enche-se o forno e os assadores ficam cheios de vários centos de sardinhas trazidas da cidade. O serão principia cedo, quase logo após o sol deixar de brilhar no horizonte. São os vizinhos mais próximos os primeiros a chegar e a cantoria lança o “chamadouro”. Não demora a que muitas pessoas se juntem à festa. Engrossa o coro e variam as cantigas. Quando aparece a espiga vermelha (milho rei) é um delírio de abraços e gargalhadas. Seguem para os espigueiros os cestos e os molhos de palha que se alinham ao longo da parede. Só quando o milho acaba é que há ordem para levantar. Até ali, só para necessidades ou para despejar cestos. Então, vêm as sardinhas e a boroa e para depois o agradecimento do patrão. Despede-se com um sentimento de profunda gratidão dos que partem, sobretudo dos mais velhos ou algum a que não sobeja a alegria, por ter alguém doente ou por estar de luto devido à morte de pessoa de família.

 

                                 

                                       Fig. 2: A desfolhada

 

O linho

 

Começa a rarear o número dos que semeiam linho porque é um trabalho difícil e pouco compensador. Mas, há quem se mantenha fiel à tradição de tempos imemoriais. Escolhido o campo, pelo tamanho e pelas condições de fertilidade deixa-se a flor azul desabrochar. Quando esta estiver desenvolvida arranca-se e ata-se em molhos onde ficam oito dias mergulhadas em água. Depois é estendido para secar em paul soalheiro. Mais tarde é espadelado a fim de libertar as fibras das arestas que ainda restam. Entra nas rocas e, nas noites longas de Inverno, à volta da lareira, aí ficam as mulheres com o fuso a deslizar entre os dedos, puxando o fio. O tear transforma-o em toalhas, camisas, lençóis e outras peças de vestuário ou utilidades domésticas

 

                      

                               Fig. 3: Fiar o linho

 

A matança do porco

 

Causa sempre um certo alvoroço a matança do porco. Na véspera a mulher da casa desloca-se à cidade, anda às compras da semana e acrescenta e acrescenta a compra dos preparativos. No dia anterior tudo tem de ficar pronto: alguidares bem lavados e o pote grande cheio de água. A alta madrugada, chega o matador.

Começa a faina: agarrar o animal e coloca-lo sobre o carro, prender o pescoço, segurar cada um na sua perna, chegar à beira ao alguidar para aparar o sangue e, por fim o animal é morto. Depois do corpo estar esqueimado e bem lavado com água a escaldar, é aberto para ser limpo. Depois é pendurado na roldana.

Segue-se o almoço que é sarrabulho e não faltam conversas alegres e gargalhadas.

No dia seguinte, bem escorrido o sangue, depois de 24 horas pendurado de cabeça para baixo, começa-se a desmancha-lo: separação dos presuntos, das barrigas, da cabeça, das orelheiras e de tudo o mais. Depois segue-se a salga e a arrumação das carnes. Inicia-se o enchimento dos farinhotos e chouriças.

 

                                  

                               

                       Fig. 4: Família reunida na matança do porco

 

O namoro

 

Quando a puberdade bate à porta e um conjunto de novos encantos lhe despertam o gosto de se ver ao espelho, a rapariga “começa a olhar para a sombra”. Habituada ao recato tenta ocultar as saliências dos seios e outros sinais de mudança de idade. Tudo sem êxito, pois os rapazes também sentem um mundo novo a pulsar dentro de si, a atracção por tudo o que é feminino. É por outro prisma que vêm certas companheiras de infância e lançam-lhes, por isso, olhares mais insistentes e, por vezes, formulam perguntas para as quais tentam adivinhar respostas.

Os rapazes acabam por despertar o interesse nas raparigas e saem aos domingos, passando a tarde juntos, sentados num banco de pedra ou nalgum passeio.

 

A boda

 

O dia da boda era um dia de festa, e não havia sacrifício que não se fizesse para deixar o dia assinalado.

Existiam muitas preocupações, pois nem sequer se consegui espaço para acomodar todos os convidados e tinha de se recorrer, por exemplo, ao coberto.

Para os mais pobres, a simplificação impunha-se principalmente no vestuário. Mas nem por isso a data não deixava de ficar na memória de todos.

Era objecto de grande cuidado o vestido da noiva, ricamente confeccionado, se os pais fossem ricos. Para isso recorria-se à melhor costureira das redondezas, e procurava-se que fosse ela a escolher tudo o que era preciso comprar e que ainda ajudasse a vestir e a pentear. O ramo ou palmito, que no fim ia depor no altar de Nossa Senhora, como preito de homenagem e também em jeito de pedido de bênçãos, era prenda do noivo, bem como alguma peça de vestuário ou arrecadas de ouro.

Nos locais onde havia mais gosto pelo folclore, o fato usado pela mãe ou pela avó, depois de bem assoalhado ou e de ter alguma reparação indispensável, servia ainda para o mesmo efeito.

O noivo também vestia o melhor que lhe era possível: fato de boa fazenda, camisa de linho, bordada pela noiva e por ela oferecida, cravo ao peito e a grossa corrente a pender duma casa do colete até ao bolso onde acomodava o relógio.

         As alianças eram oferta dos padrinhos de casamento a quem competiam também as despesas do processo, a pagar na igreja.

 Chegada a hora da partida para a igreja, do quarto onde se vestira e penteara, com a ajuda da mãe e de alguma amiga, saía a noiva, alegre e sorridente.

          Das casas, espreitavam velhas e crianças e, no regresso as raparigas ao caminho abraçavam e espalhavam pétalas de flores ou confeitos.

 Ao chegarem a casa, servia-se o almoço – quase todo preparado com produtos caseiros: galos, algum pato ou peru, presunto, chouriços e salpicões, batatas, hortaliças, arroz, fruta e doçaria. Vinho era sempre do melhor.

Todos se sentiam felizes e muito mais os noivos. Mas eles sabiam ter de acautelar-se, pois não era raro haver quem procurasse pregar-lhes partidas.

         Por isso, nunca, à noite, deixavam de verificar se não haveria no meio da palha do colchão algum bocado de mato ou açúcar espalhado pelos lençóis e cobertores.

Extinta a euforia do dia e noite de núpcias, tudo prosseguia sem alterações do ritmo habitual. Agora, era trabalhar e dar-lhe de duro, como viam fazer aos outros.

 

Os filhos

 

Para o lavrador abastado era motivo de alegria ter muitos filhos. Sobretudo se eles vinham sem problemas. Criá-los não dava que pensar, normalmente, pois quase sempre eram robustos, não faltava o leite às mães e passavam deste para o de vaca, com boroa esmigalhada, caldo e papas de farinha milha. Os pequenos bem depressa cresciam e agarravam na soga do gado e o guardavam nas pastagens ou ajudam nas lides caseiras, se eram raparigas.

Quase nada aumentava as despesas habituadas, pois o fatinho de domingo durava muito e as roupas de trabalho de pouco mais careciam que água e sabão ao fim da semana e agulha, linha e remendo se houvesse um rasgão. A alimentação também não pesava no orçamento, já que o pote dava sempre para mais uma malga de caldo.

         Com abundância só se comia em dia de festa, noite de Consoada ou quando a lavrada do campo metia “gente de fora”. Se não, era caldo de couves em que se esfarelava muito pão; batatas e bacalhau com grelos, troços ou nabos ou a sardinha partida ao meio com batatas cozidas.

         A escola vinha atrasar muitas vezes e muitas vezes a ela faltavam, se havia trabalho para o qual fizesse jeito o seu contributo.

 

Cozedura do pão

 

Em quase em todas as casas há forno e se coze pão uma vez por semana.

Começa cedo o trabalho, para não atrasar a ceia. Escaldada a farinha e misturada a liga de centeio e o fermento, é amassada com calma. Depois, espremidas as mãos, para nada se perder e tudo bem alisado, a encarregada do serviço traça sobre ela uma cruz e profere:

“S. Vicente te acrescente,

S. Mamede te levede…

Em louvor de S. Gonçalo

Nem ensosso nem salgado.”

 

Acende o forno, depois de ter espreitado se em qualquer ponto há buraco a carecer de barro e vai deitando lenha. Quando o forno estiver aquecido ao rubro são acamadas as boroas, mais ou menos altas consoante as necessidades do espaço de que dispões o forno. Com a pá, a moça desenha, no fim, sobre elas uma cruz, que acompanha com as palavras:

“Deus te acrescente,

Dentro do forno,

Fora do forno,

Para pobres e ricos, todos os que baterem ao portal.”

 

Depois, com barro amassado ou bosta, veda-se tudo para que não haja qualquer fuga de vapor de água e de calor. E pouco depois está o pão feito, pronto a ir para a mesa e a ser comido. 

 

                        

   Fig. 5: Pão a entrar no forno 

 

Publicado por viananamaior às 09:09
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