Terça-feira, 4 de Março de 2008

Entrevista ao director do jornal " Aurora do Lima"

A “Aurora do Lima” é um jornal local que subsiste à 152 anos, ou seja, desde 15 de Dezembro de 1855, data da sua fundação. A “Aurora do Lima” é o jornal mais antigo do Continente português porque nos Açores edita-se o “Açoriano Ocidental” desde 1835.

 

Entrevista ao director do jornal “Aurora do Lima”, Bernardo Silva Barbosa.

 

1.      Como surgiu a ideia de criar um jornal regional?

            A ideia da criação surge com a abertura política monárquica pós-cabralista” (o liberalismo de 1820), que permitiu a a criação de dois partidos políticos monárquicos: o Regenerador e o Progressista, liderados por duas proeminentes figuras vianenses, ao tempo: José Malheiro Reimão (ligada ao ainda hoje existente palacete da Capelas das Malheiras, com fortuna feita no Brasil) e António Alberto da Rocha Páris, conselheiro, Governador Civil e grande benemérito da Cidade (nome de avenida na cidade). Esta seria a sua componente polícia que justificaria a criação d’AURORA.

Outra haverá por existir, antes da sua criação um entendimento entre amigos que estavam amantizados com duas senhoras casadas: José Barbosa e Silva (com Antónia Plácido e o nosso celebra romancista (novelista da TV daquele tempo! Se existisse) Camilo Castelo Branco. E entre os dois estabeleceu-se uma amizade que convinha a JBS (financiador d’Aurora, deputado às Cortes, homem de dinheiro e, naturalmente, com pretensões literárias). Existe bastante documentação, principalmente as 100 cartas de Camilo a JBS, onde se desvenda parte disto. Camilo era um femeeiro além de perdulário, e seu amigo JBS é que tinha “a massa”. Camilo fazia quase sozinho o jornal, naqueles primeiros anos. Podem procurar em “Amores de Camilo”, nos três volumes de Aquilino Ribeiro (há pouco transladado para o Panteão Nacional essa relação ou nos bibliógrafos de Camilo, Alexandre Cabral e outros. ETC., Etc.

 

2.      Quando foi a primeira edição da “Aurora do Lima”?

A primeira saiu a 15 de Dezembro de 1855.

 

3.      A direcção tem passado de geração em geração?

A Família Barbosa e Silva nada ter a ver com a actual direcção e proprietário Silva Barbosa. Meras sugestões, como se deduz no resumo em anexo.

 

4.      Qual a sensação em saber que a “Aurora do Lima” é o jornal mais antigo do continente?

Nada de especial, só a responsabilidade ética e cívica de não deixar cair um “património nacional” por onde passou nosso avô e pai.

 

5.      Qual a primeira sede do jornal?

A primeira sede foi na R. S. João que hoje já não existe, que saía ali junto ao restaurante Casa d’Armas, ao fundo da Avenida. A Rua do Vilarinho, que entronca na Rua “A Aurora do Lima” tem lá uma placa no local onde praticamente se localizou o jornal durante largos anos….depois Rua de Picota até 1951 e finalmente onde agora estamos.

 

6.      Qual a tiragem semanal? Foi sempre assim?

A tiragem actual e de cerca de 10.000 semanais (bissemanário); não foi, naturalmente, sempre assim o jornal veio sempre a crescer em tiragem como a população e os meios de comunicação.

 

7.      Quantas pessoas são necessárias para a edição do jornal?

Fazem o jornal muita gente: redactores; colaboradores e correspondentes, mas na redacção e oficinas trabalhão nove pessoas: jornalistas (2); redactors/paginadores (3); impressores (2); informático (1) e administrativo (1), mas parte destes diversificam-se noutras operações manuais de dobragem e cintagem do jornal para expedição. Só vendo.

 

8.      Qualquer pessoa pode publicar um anúncio no jornal?

Sim, “qualquer pessoa” pode comprar acesso a publicidade, naturalmente com limitações de decência e verdade.

 

Breve história do jornal

 

150 anos de memórias e afectos na história de Viana

Bernardo Silva Barbosa (*)

É difícil contar a história d’A Aurora do Lima. Compulsando a sua imensa bio-bibliografia, contida no arquivo, dela pode retirar-se muitas e variadas estórias. Porém, dificilmente alguma acabará por nos dizer o que foi a vida deste Jornal no seu século e meio de ininterrupta publicação. Todas juntas contribuirão certamente para os 150 anos de memórias e de afectos na história de Viana.

Nos dois períodos que a seguir se sintetizam - correndo o risco de adulterar o percurso da sua caminhada – talvez se possa vislumbrar alguma razão que explique esta longínqua jornada, da sua continuidade, agora, como decano dos jornais continentais:

1.        Um primeiro período, o do grupo dos fundadores, directores, editores e redactores, até aos finais do século XIX, próximo do derrube da Monarquia. Surge à cabeça a família Barbosa e Silva, com o capital necessário para a criação da Aurora: José, Matheus e Luís, embora estes dois últimos pouco ou nada tenham intervido no Jornal; o fundador e primeiro director é o major João Maria Baptista de Oliveira, depois José Afonso de Espregueira; segue-se José Barbosa e Silva, Eugénio Martins, João Caetano da Silva Campos e José Caetano Palhares Malafaia Viana, até 1907. Neste período, Camilo Castelo Branco (32 anos), amigo de José Barbosa e Silva, com 28, assume com relevante importância o papel, primeiramente de redactor do jornal nos cerca de dois meses (de 7 Abr a 28 Mai de 1857) de estada em Viana, e depois, como colaborador, até 1858.

2.        Num segundo grupo, ou período, surge Bernardo Fernandes Pereira da Silva. Chegado ao jornal a partir de 1878 (com 12 anos), como tipógrafo e ”rapazinho de recados”. Em 1907, já com 41 anos, seu 8º director, até ao falecimento em Fevereiro de 1948. Segue-se-lhe praticamente Aurélio Pereira Barbosa, que já antes havia feito o mesmo percurso: entrara para a Aurora por volta de 1932 (com 17 anos), como aprendiz de tipógrafo e, em 1939, viria a desposar a filha do director, Constança da Luz Pereira da Silva.

A presença de Aurélio Pereira Barbosa, mesmo como administrador, depois da morte de Bernardo Silva, com os directores e editores que o jornal teve nesse tempo, é tutelar no jornal. Obrigado, por perseguição política, a deixar de ser editor em 1948 e a cumprir cerca de dois anos de prisão no Forte de Peniche (1953-54), não se pode esquecer, neste período, a desinteressada colaboração e ajuda de Felipe Fernandes, que, como director, veio depois a figurar 42 anos, no cabeçalho do jornal (desde Nov 1950 a Out 1992), sucedendo ao ten. coronel Ernesto Sardinha (de Mar 1949 a Set 1950). Constança Silva, no período de detenção de seu marido, teve a seu cargo a administração do jornal, com a prestimosa ajuda dos tipógrafos Juvenal Sousa, Magalhães Victor, Salvador Pinheiro, António Rocha e Fernando Moreira e, naturalmente, do director Felipe Fernandes.

Com o advento da liberdade, em 25 de Abril, Aurélio Barbosa não quis assumir a direcção do Jornal, embora Felipe Fernandes lha tenha procurado “devolver” de imediato. Fundou com outros camaradas o semanário “Praça da República”, sentindo a vaga de esquerdismo que assolava o país, protegendo a Aurora dessa forma. O inesperado desaparecimento de Felipe Fernandes levou a recair a direcção sobre o colaborador mais chegado, Aristides Arroteia, até Setembro de 2002. Retirado este por motivos de saúde, fica e termina muito justamente a sua vida como director, Aurélio Barbosa, até ao dia 19 de Abril de 2005.

Durante a Monarquia a Aurora alinhara pelo Partido Progressista (comandado por António Alberto da Rocha Páris) contra o Regenerador (de José Malheiro Reimão). Com a revolução republicana (1910) passou-se algo de certa forma paralelizável ao período pós-revolução dos cravos (1974): Bernardo Silva, monárquico progressista naquele tempo, sai do cabeçalho do jornal e só o retoma cinco anos depois. Em 1922, vê-se obrigado a contrair um empréstimo (a António Tomaz Quartin) para adquirir o jornal que havia, certamente, caído em desgraça aos olhos dos republicanos.

Daqui para a frente a Aurora tem procurado seguir, nos termos do seu já antigo estatuto editorial, uma total independência dos poderes instituídos e da política partidária, procurando sempre a defesa dos interesses regionais e locais.

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(*) Director do Bissemanário “A Aurora do Lima”.

Palestra proferida na Pousada de Sta. Luzia, na noite de 21 de Outubro de 2005, na Homenagem do Rotary Clube de Viana aos 150 anos do Jornal.

Agradecimentos devidos ao António de Carvalho, colaborador do Jornal, pelas pesquisas inéditas que nos facultou e ao João Lomba da Costa pelo convite em representação do Rotary e pela amizade à Aurora.

 

 

 

 

 

 

 

Publicado por viananamaior às 09:02
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