Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Ouro do Minho

Ouro do Minho

   O ouro é um dos principais símbolos e riquezas de Viana do Castelo. “O ouro no peito da minhota não é apenas um enfeite ou uma vaidade - é o seu melhor símbolo de riqueza”. É um esplendor, porque “o peito da minhota é um céu estrelado”.

   "Em Viana não se trabalha o ouro, mas esta cidade é o tabuleiro e o traje à vianense é a montra onde todo esse património, essa identidade cultural passa fronteiras e leva à ribalta citadina e europeia a áurea da nossa joalharia, o ouro do Minho, o ouro de Viana."

   As peças de ourivesaria popular de Viana incorpora nas suas formas os estigmas dos amuletos, as crenças e as heranças míticas tradicionais do Minho. Em determinadas solenidades, as mulheres de Viana usam os brincos ou arrecadas, três cordões ao pescoço, um trancelim, um fio de contas, uma custódia, uma laça e quando a vianesa pertencia a um escalão económico superior, exibia ainda a sua bela gramalheira.

   As peças de ouro provêm sobretudo de Travaços e Sobradelo da Goma (Póvoa de Lanhoso) e de Gondomar.

“BOTÕES”

   Eram oferecidos pela madrinha de baptismo, à qual competia dar a mortalha se a menina viesse a “tornar-se anjinho do Senhor”! Por isso, se a criancinha morresse vendiam-se os botões para ajudar no custo do vestido que “levaria para o céu”! Se tal fatalidade não ocorresse, então, à medida que o crescimento dela se ia verificando, os “botões” ou “botõezinhos”, iam sendo trocados pela madrinha, de sorte que, já mulherzinha, a afilhada se tornaria dona dos tão almejados “brincos à rainha”.       

                                         

                                                 Fig. 1: "Botão"

 

"COLARES DE CONTAS"

   As peças de ouro popular com antepassados mais longínquos são as contas. Nas civilizações muito antigas e primitivas, em que se desconhecia a tecnologia do metal, usavam-se os colares com as mais variadas pedras e pérolas. Posteriormente, apareceram contas maciças dos mais variados metais. A mais antiga conta em ouro maciço encontrada em território português data do 3º milénio a. C. e foi descoberta na zona de Sintra. As actuais contas de Viana - ocas, e que antigamente ainda eram bem mais leves - são descendentes directas das gregas, fenícias, romanas e etruscas, sendo estas últimas as que mais se assemelham às actuais. A granulação ou polvilhado e a filigranação envolvente não passavam dum mero adorno, pois o que sempre prevaleceu foi a sua forma esférica e arredondada. Esta forma é encontrada, para além das contas, nos brincos parolos ou de chapola. O colar de contas era adquirido pela mulher de Viana antes do tão desejado cordão. Era muitas vezes comprado conta a conta à custa das poucas economias dessas jovens, em geral provenientes da venda de ovos ou do comércio de frangos. As contas usavam-se em número variável, consoante a localidade, mas nunca, como agora, a rodear completamente o pescoço. As contas iam só até ao meio do pescoço ligadas por um fio de correr. Podia aumentar ou diminuir-se o colar consoante a necessidade, e este terminava na parte de trás com um “pompom”. O fio era feito, manualmente, em algodão e poderia ser vermelho, amarelo ou azul. Os “pompons” eram das mesmas cores ou com fios mesclados. O colar de contas raramente era usado sem uma “pendureza”, como uma custódia.
                                     
                                   Fig. 2: Colar de contas
BRINCOS
   Nada mais significativo de miséria do que não ver brincos a pender das orelhas. Quem desculparia ver uma mulher de antigamente, por mais humilde que fosse, desprovida de arrecadas?! Sem a mais ligeira contemplação o povo considerava-a uma “mulher fanada”! Para melhor se julgar quão desprestigiante era a falta de brincos, basta dizer que aos Santos se prometia andar sem eles – e, como prova do sacrifício, era coisa de se ter em conta muito especial. Não tenham dúvidas que constituía um verdadeiro tormento passar por fanada, dois ou três meses, um ano até! E por isso se comentava: ‘Em que estado de angústia se teria achado para tal prometer!’ Realmente, esse tipo de promessa era tido como acto verdadeiramente estóico! Era muito raro deixar o par no ourives, pois tinha que ser iludida a impiedade das más-línguas. Assim, servia-se do falso pretexto da orelha ferida – aquela que estava desguarnecida do brinco! Para melhor representar, ou antes, para melhor convencer, besuntava com unguento ou caiava com alvaiade o competente lóbulo!
 
"ARRECADAS DE VIANA"
   Também designadas por argolas filigranadas, de “bambolina” ou de “pelicano” - esta referências dizem respeito ao quarto crescente móvel, daí estas duas últimas designações serem populares. São as herdeiras das arrecadas castrejas que se metamorfosearam até aos nossos dias mas que se mantêm na sua essência, com pequenas alterações. Trata-se de um dos poucos casos de ourivesaria em que as classes privilegiadas imitaram peças da ourivesaria popular. Actualmente são de forma circular, com a lúnula na “bambolina” ou “pelicano”, “SS” filigranados e triângulo invertido como remate. São feitas com filigrana aberta, poderão levar uma conta de Viana no encaixe do fecho ou a toda a volta (normalmente cinco).

 Fig. 3: Arrecadas

 

 

"BRINCOS À RAINHA OU À VIANESA"
   À moda da rainha, de mulher fidalga ou burguesa rica. São brincos muito elegantes e, ao contrário das arrecadas, são cópias adaptadas dos brincos e laças que apareceram em Portugal no reinado de D. Maria I.

 

Fig. 4: Brincos à rainha

 

 

"CUSTÓDIAS"
   Assim designadas por, na parte central, existir uma peça que sugere o expositor do Santíssimo. São também chamadas relicários, “lábias” ou “brasileiras”. Jóias feitas em filigrana um pouco aberta e não muito apurada. Chamam-lhes “lábias”, pela semelhança com os lábios da parte superior. “Brasileiras” porque, na altura em que os homens de Castelo do Neiva emigravam para o Brasil, quando vinham a Portugal visitar a mulher ou a namorada, tinham obrigatoriamente de comprar esta peça, mesmo que fossem imensos os sacrifícios feitos para esta aquisição (muitos dos que iam para estas paragens, vinham ainda mais pobres). A custódia, era orgulhosamente exibida, na missa dominical, e à saída então o povo, perante tal exibição diria “Olha a brasileira!” - daí a peça passou a ter essa designação.

 Fig. 5: Custódia

 

"PEÇAS"
   São moedas autênticas embelezadas com espalhafatosa cercadura, nas quais se inserem umas presilhas com a finalidade de segurar a moeda sem lhe causar danos que altere o seu valor numismático. As moedas mais utilizadas eram as libras de cavalinho e cara de mulher (Rainha Vitória) - pois as caras de homem (Jorge V) não eram muito do agrado da mulher minhota - moedas de cinco e dez mil réis.

 Fig. 6: Peça

 

   Os corações de filigrana que aparecem hoje muitas vezes ao peito da vianesa não eram usados noutros tempos com tal frequência - por causa da sua grande mão - de - obra e por normalmente serem feitos em prata dourada, metal utilizado na maior parte dos que actualmente se fabricam.

 Fig. 7: Coração

 

"CORDÕES"

   São fios com dois metros e vinte (podendo, neste caso, dar quatro voltas ao pescoço). Podem ser de elos redondos (como os manuais de antigamente) ou em forma de pêra. Quanto ao peso, podem ser finos (linha), grossos (soga) e ocos. O cordão era o terceiro ouro da rapariga, ocupando o primeiro os “botões” e o segundo o colar de contas.

 

 Fig. 8: Cordão

 

"TRANCELINS"

   Só depois do terceiro ou quarto cordão é que era adquirido o trancelim. Têm o mesmo comprimento dos cordões, mas os seus elos são trabalhados normalmente em filigrana.

Fig. 9: Trancelins

 

 

 

                                             

Publicado por viananamaior às 09:18
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